segunda-feira, 26 de junho de 2023

6 Luas Cheias











6 Luas Cheias

Aqueles seis meses foram tristes para Londres e para o orfanato.

Os aviões nazistas cruzavam os céus junto com a lua, deixando para atrás de si milhares de covas.

 Junto com os ataques vinha a escassez e a falta de energia elétrica.
A falta de energia elétrica contribuía para os saques cada vez mais frequentes.





Com exceção do Orfanato, que embora permanecesse no escuro, aparentava estar protegido por uma matilha de lobos disposta a destroçar qualquer um que se aproximasse dos extensos muros.

Encerrados em seus muros, seus moradores ainda carregam suas rotinas e segredos.


Um velho professor aparenta estar ainda mais cansado após as férias escondido no espinhal.
Uma freira continua recebendo visitas noturnas.





Ainda há um rapaz que costuma se levantar sonâmbulo e deitar na cama que fora de um dos seus companheiros de quarto. Ele esta sozinho, já que um "foi pra guerra" e o outro desapareceu em  uma noite de lua cheia. Deste último, todos pensam que foi devorado por lobos.




Mas quanto tempo uma ideia demora para tomar forma? Quanto tempo dura a gestação do medo?





terça-feira, 30 de maio de 2023

O Julgamento - Parte III

 







O Julgamento - Parte III

(A grade porta se abre e cheiro de fuligem enche o salão. Uma criatura de forma incerta, cheia de bocas sorridentes e braços se arrasta pelo corredor. Lá fora, quem fecha a porta é uma senhora, coberta de queimaduras)

(A criatura se senta no lugar onde estava Buck. As bocas em seu corpo se abrem e fecham, ora sorrindo, ora fazendo caretas. Juiz Peter começa)

- Senhor, pode se apresentar e esclarecer-nos quanto à sua relação com o réu?

- Eu não posso dizer meu nome, meritíssimo juiz. Mas podem se referir à minha monstruosidade como Espectro. (falou com uma voz que variava entre o deboche e o escárnio). Bem, eu conheço o réu desde criança, meritíssimo! Desde que sua mãe o colocou no mundo, amaldiçoando-o. Eu ouvi e atendi. Ele é meu!

(silêncio completo)

- Que papel tem o senhor nas ações das quais o réu é acusado? (pergunta o advogado de defesa Peter)

- Nenhuma, doutor! (ao menos trinta bocas sorriem) O pequeno Peter é responsável por todas as suas ações! Eu, ás vezes, só dou um empurrão!

(A plateia murmura)

- Em que ocasiões o senhor deu seu empurrão, Senhor Espectro? Foi o senhor que o fez queimar a casa da senhora que o criou?

(A criatura fecha todas as bocas)

- Foi o senhor que o fez matar os nazistas? Foi o senhor que o impeliu a manipular a mente do senhor Buck? Foi o senhor que o fez fazer mal uso de seus dons desde que foi abandonado pela mãe? (o tom de voz do advogado de defesa Peter foi subindo a cada frase)

(as bocas sorriem em deboche)

- Doutor, talvez desconheça da natureza do ser humano, pois é humano! Espalhar a desgraça e a desavença é de sua natureza! Vocês não conseguem entender seu próprio propósito, lugar e aspirações! Criaturas como eu só precisam estar por perto para fazermos o que nos é devido. Ainda mais quando uma criança nos é oferecida assim...tão tenra... tão cheia de dons...

- O réu tinha ciência de suas ações para com ele?

- Não, doutor! As poucas vezes em que nos encontramos em sonhos foram apagadas pelo tal Duque. E mesmo assim ele não sabia do que se tratava. O Duque conseguia me manter longe, mas eu não o vejo desde que morreu (risos).

- Eu terminei minhas perguntas, meritíssimo.

(Levanta-se o promotor)

- Vossa excelência, a acusação não tem perguntas para fazer ao senhor Espectro, uma vez que acreditamos que não há nada que se possa esperar... (olha para os afrescos no teto) ...de alguém que é capaz de queimar a própria mão que o alimenta! Os atos falam por si!

(A criatura se retira e o juiz anuncia)

- Agora as partes ouvirão O RÉU!





O Julgamento - Parte II

 






O Julgamento - Parte II

(O rapaz nu enforcado se senta de fronte ao juiz)

- Qual o seu nome, rapaz? (diz o juiz austeramente)

(O rapaz tenta falar, mas só se ouvem sussurros e grunhidos. O Promotor se dirige até a testemunha e afrouxa o nó da corda em seu pescoço. A plateia murmura sons irreconhecíveis)

- Meu nome é Buck, senhor! (fala em uma voz rouca)

- E qual seu grau de relacionamento com o réu Peter, Senhor Buck?

- Nós éramos... amigos (ele se vira e encara réu Peter). Mas não somos mais.

- E oque abalou a amizade do senhor com o réu?

(o rapaz tenta afrouxar um pouco mais a corda com o dedo indicador)

- Nós fazíamos tudo juntos, sempre! Mas ele começou a andar com um pessoal estranho, sabe?! 

- Estranhos como, Senhor Buck?

- Afeminados e perdedores, doutor! (a plateia murmura novamente. Ouve-se: afeminados e perdedores)

(O juiz Peter pede silencio novamente) - Continue, senhor Buck.

- Bem, então a gente fazia tudo junto: eu, ele e outro cara. Daí ele começou a agir estranho, não andar com a gente, não encarava as mesmas paradas. Começou a defender este povo. Daí tudo acabou!

- A testemunha pode ser arguida pelo Promotor (diz o juiz, enquanto vira uma ampulheta)

(O promotor Peter se levanta, arruma a capa e começa a gesticular enfaticamente enquanto fala, às vezes chegando a curvar-se)

- Irei direto ao ponto, meritíssimo: Senhor Buck, o senhor considera o réu Peter culpado pelo seu enforcamento?

(a plateia murmura. O juiz os manda parar. O advogado de defesa Peter se levanta e diz)

- O promotor esta induzindo a testemunha, meritíssimo! Desta maneira parece que o réu enforcou a testemunha com as próprias mãos, sendo que sabemos que ele cometeu o ato sozinho!

(O promotor Peter solta uma gargalhada, curvando-se para trás)

- Realmente o réu não atou o nó! Mas ofereceu a cadeira!

(Novos murmúrios e novamente o juiz intervém. Réu Peter se levanta e fala)

- Ele mereceu! Ele transformava a vida das pessoas num inferno! Ele teve o que mereceu! Ele é doente!

(A plateia urra. O juiz Peter aferrece. O promotor Peter gargalha. o Advogado de defesa Peter força o cliente a sentar-se novamente)

- Veem, senhores do juri?! O réu acredita que pode decidir quem vive, quem morre e até mesmo o que pensam e sentem! O acusação já não tem mais perguntas á testemunha, meritíssimo!

(olha-se para cima e 13 Peters pintados como afrescos se movimentam pelo teto, cochichando entre si)

- A testemunha é agora do advogado de defesa, Doutor Peter. (diz o juiz, enquanto examina papéis)

(O advogado de defesa Peter se levanta, arruma as vestes. Esta nitidamente nervoso)

- Senhor Buck. O senhor pode me dizer que tipo de atos o senhor perpretava com ajuda de seus amigos? Devo lembrá-lo que temos acesso à todas as imagens, senhor.

(A testemunha começa a murmurar coisas sem sentido. O promotor Peter diz que a testemunha esta confusa pela própria morte e por encarar seu inquisidor. a Plateia murmura. O advogado de defesa Peter aponta para o alto e as imagens são projetadas no afresco)

(Imagens de Buck urinando em Mihael. Imagens de Buck batendo em Peter. Imagens de Buck batendo em Mihael. Imagens de Buck penetrando Chad. Várias imagens de Buck maltratando diversas crianças diferentes. Imagens de Buck batendo na madre superiora. A plateia exclama: OH!)

- Como pode ver, meritíssimo, o réu já mostrava sinais de descontrole de diversas formas. Meu cliente apenas quis faze-lo provar do próprio remédio! O senhor Buck não suportou e associado à invasão nazista, tirou sua própria vida.

(A plateia urra. o juiz mate o martelo mandando-os silenciarem-se. Alguém atira um coração humano contra o réu. Shoshana é retirada à força pelo policial Peter. O Advogado de defesa Peter continua:)

- Nenhuma das ações feitas pelo meu cliente são de sua responsabilidade. Há diversos fatores envolvidos! A infância traumática, o abandono, a desconfiança e principalmente, O ESPECTRO!

(A plateia volta a se manifestar. O juiz Peter bate o martelo e chama)

- Que entre a segunda testemunha! O Espectro!



O Julgamento - Parte I







O Julgamento - Parte I

Cenário:

Colunas de mármore. Os bancos estão alinhados perfeitamente me frente à gigante mesa de carvalho. Á direita, em uma mesa menor, senta-se o advogado de defesa. À esquerda, em uma mesa igual, porém inversamente posta, senta-se o promotor.
Na plateia uma multidão de Peters se acumulam, vestidos todos de cores sóbrias.

Música de fundo:


(uma grande porta de madeira se abre e o réu Peter é trazido algemado pelo policial Peter. Metade da plateia vaia, a outra metade aguarda em silêncio.)
(O réu Peter é colocado sentado junto ao reservado ao advogado de defesa, onde aguarda)
(a porta se abre novamente e entram Peter promotor e Peter advogado, com capas esvoaçantes. Estes se sentam em seguida)
(uma pequena porta, próxima à mesa do juiz, se abre e entra juiz Peter, usando uma peruca branca. A plateia começa a cochichar. O Juiz Peter se senta:)

- SILENCIO! (todos ficam mudos) Estamos reunidos aqui hoje para julgar os atos perpetrados pelo Senhor Peter Elderwood. Doutor Promotor, pode começar.

(Promotor Peter se levanta e pigarreia)

- O réu é acusado de assassinato premeditado, estupro indireto, manipulação de humanos não despertos, com o agravante de uso de magia contra adormecidos em todos estes crimes.

- Como o réu se declara? (pergunta juiz Peter)

- O réu de declara inocente de todas acusações, meritíssimo! (diz o advogado de defesa, levantando-se)

- Que entre a primeira testemunha da acusação! (diz o juiz)

(a porta ao fundo se abre e um jovem entra. Ele esta nú e tem uma corda amarrada ao pescoço)


terça-feira, 16 de maio de 2023

O Enforcado

 







No gesto suspensivo de um sobreiro,

o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,

espantalho que ninguém vê,

suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.



quarta-feira, 10 de maio de 2023

A Primeira Trombeta








O segundo Anjo olhou para o céu e do fundo de seus pulmões ecoou o som da primeira trombeta.

O céu escureceu e as estrelas caíram do céu, atingindo casas, creches e hospitais.

Os lobos uivaram quando viram o rastro de fogo e enquanto seus pelos se eriçavam as criaturas das trevas se escondiam nas sombras, afastando-se do fogo mortal.

O barulho dos pássaros de metal era ensurdecedor e se sobrepunha às sirenes que alertavam a chegada dos espíritos da morte.

Pelos rádios os alertas gritavam para que todos procurassem abrigo.

No orfanato as sirenes que não tocavam há décadas soaram e os monitores encaminharam os órfãos para o abrigo, sob a construção. As freiras seguravam crucifixos enquanto entoavam a ladainha.

Quando a energia caiu as crianças menores começavam a chorar, bem como algumas das meninas mais velhas, enquanto Irmã Bárbara corria ao telefone, que estava mudo. Esta imediatamente saiu em disparada pela escada, mesmo sob aviso de não fazê-lo. Enquanto ouvia explosões ao longe corria pelos corredores e entrava em seu escritório. Abriu a gaveta e puxou a pedra em formato de um lábio gigante:

- Senhor Duque, senhor duque! Em nome de Deus, o que está acontecendo?

Do outro lado o Duque não respondeu.

Irmã Bárbara guardou a pedra e rezou aos deuses.




quinta-feira, 6 de abril de 2023

Mais uma aurora

 






Mais uma aurora chega.

Os órfãos da Rainha se levantam despreocupados com mais uma quarta-feira corriqueira de fim de outono. Casacos pesados são vestidos e há no ar uma certa expectativa para o Natal dentro de uma semana.

Um de nossos heróis se contorce de rir ao apontar que seu novo arque inimigo molhou a cama naquela noite. Com certeza ele vai sentir a palmatória e prestar serviços na lavanderia por uma semana.

O segundo heróis não pregou os olhos, sente o peso nas costas de uma culpa que espreita de olhos abertos durante toda a madrugada.

Nosso terceiro herói se masturba observado por uma presença fantasmagórica.

Mas nenhum deles e nenhum outro aluno daquele orfanato esperava que o café da manhã fosse interrompido pelo professor Paul, comunicando algo aterrador à Irmã Bárbara. Tal segredo ainda ficou escondido por alguns minutos, enquanto os alunos eram enviados para seus dormitórios. Todas as aulas foram suspensas naquela manhã. Mas foi impossível esconder o corpo que jazia desmembrado no jardim: todos os alunos cujas janelas eram voltadas para o bosque puderam ver.

Todos menos Milene.