terça-feira, 30 de maio de 2023

O Julgamento - Parte III

 







O Julgamento - Parte III

(A grade porta se abre e cheiro de fuligem enche o salão. Uma criatura de forma incerta, cheia de bocas sorridentes e braços se arrasta pelo corredor. Lá fora, quem fecha a porta é uma senhora, coberta de queimaduras)

(A criatura se senta no lugar onde estava Buck. As bocas em seu corpo se abrem e fecham, ora sorrindo, ora fazendo caretas. Juiz Peter começa)

- Senhor, pode se apresentar e esclarecer-nos quanto à sua relação com o réu?

- Eu não posso dizer meu nome, meritíssimo juiz. Mas podem se referir à minha monstruosidade como Espectro. (falou com uma voz que variava entre o deboche e o escárnio). Bem, eu conheço o réu desde criança, meritíssimo! Desde que sua mãe o colocou no mundo, amaldiçoando-o. Eu ouvi e atendi. Ele é meu!

(silêncio completo)

- Que papel tem o senhor nas ações das quais o réu é acusado? (pergunta o advogado de defesa Peter)

- Nenhuma, doutor! (ao menos trinta bocas sorriem) O pequeno Peter é responsável por todas as suas ações! Eu, ás vezes, só dou um empurrão!

(A plateia murmura)

- Em que ocasiões o senhor deu seu empurrão, Senhor Espectro? Foi o senhor que o fez queimar a casa da senhora que o criou?

(A criatura fecha todas as bocas)

- Foi o senhor que o fez matar os nazistas? Foi o senhor que o impeliu a manipular a mente do senhor Buck? Foi o senhor que o fez fazer mal uso de seus dons desde que foi abandonado pela mãe? (o tom de voz do advogado de defesa Peter foi subindo a cada frase)

(as bocas sorriem em deboche)

- Doutor, talvez desconheça da natureza do ser humano, pois é humano! Espalhar a desgraça e a desavença é de sua natureza! Vocês não conseguem entender seu próprio propósito, lugar e aspirações! Criaturas como eu só precisam estar por perto para fazermos o que nos é devido. Ainda mais quando uma criança nos é oferecida assim...tão tenra... tão cheia de dons...

- O réu tinha ciência de suas ações para com ele?

- Não, doutor! As poucas vezes em que nos encontramos em sonhos foram apagadas pelo tal Duque. E mesmo assim ele não sabia do que se tratava. O Duque conseguia me manter longe, mas eu não o vejo desde que morreu (risos).

- Eu terminei minhas perguntas, meritíssimo.

(Levanta-se o promotor)

- Vossa excelência, a acusação não tem perguntas para fazer ao senhor Espectro, uma vez que acreditamos que não há nada que se possa esperar... (olha para os afrescos no teto) ...de alguém que é capaz de queimar a própria mão que o alimenta! Os atos falam por si!

(A criatura se retira e o juiz anuncia)

- Agora as partes ouvirão O RÉU!





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